|
O terceiro Natal
do comércio eletrônico brasileiro enfrenta um cenário econômico
sombrio. Bombas explodem no Afeganistão, a Argentina explode no
Mercosul e as taxas de juros permanecem em patamares explosivos.
Sem esquecer que, em um ano, a bolha de prosperidade da Internet
também explodiu e, com ela, muitos varejistas virtuais. Mesmo assim,
as previsões de venda para o Papai Noel eletrônico são explosivas.
Não, não existe
nenhuma contradição entre a economia real e a virtual. Ambas estão
em crise, é verdade. Mas se os fatores citados não estivessem influenciando
o comportamento de compra do consumidor neste Natal, o desempenho
do comércio eletrônico brasileiro seria ainda melhor em 2001. Só
no período natalino, os principais varejistas virtuais vão faturar
uma boa parcela das receitas anuais e muitos deles atingirão o equilíbrio
operacional financeiro.
Pesquisa exclusiva
realizada pela e-bit (www.ebit.com.br) para a Business Standard
comprova que, em 2001, mais pessoas têm a intenção de comprar seus
presentes pela Internet e que o valor médio dos gastos serão 40%
maiores do que o mesmo período do ano passado. A e-bit, que
fez sondagens semelhantes em outras datas importantes para o varejo,
como Dias das Mães, dos Namorados e dos Pais, nunca teve uma taxa
tão alta de intenções de compra (75% dos entrevistados disseram
que pretendem comprar no Natal deste ano, contra 15% de 2000-4). "Os
grandes sites de comércio eletrônico estão fazendo um trabalho excepcional",
comenta Luiz Otávio Amaral, responsável pela área de pesquisa da
e-bit.
Os números otimistas
escondem as sutilezas das estatísticas. Para um segmento da economia
que chega ao seu terceiro Natal (o primeiro, em 1999, foi uma tragédia,
com grandes varejistas online sem itens para entregar, o que obrigou
os diretores a irem pessoalmente comprar os produtos), é natural
que o crescimento seja exponencial. Segundo estudo do Boston Consulting
Group (BCG), o varejo online cresceu 170%, passando de 335,5 milhões
de dólares para 906 milhões de dólares em 2001. E, com a quebradeira
das lojas virtuais puro-sangue, quem entrou para valer na briga
do comércio eletrônico brasileiro foram cadeias tradicionais, como
Americanas, Ponto Frio, Magazine Luiza, Saraiva e Lojas Colombo,
nomes conhecidos do consumidor.
A Americanas.com,
por exemplo, espera um desempenho duas vezes superior ao de 2000-4,
quando vendeu 7 milhões de reais. Embora não revele dados, especialistas
acreditam que, no último trimestre de 2001, a empresa opere no azul,
pois os balanços apresentaram redução das despesas operacionais
e aumento das vendas. Nos primeiros nove meses do ano, o faturamento
cresceu 282% (47 milhões de reais) e o prejuízo caiu 63,5%.
O Submarino
estima que seu faturamento será 150% maior que o Natal do ano passado.
Em números: 16 milhões de reais. Em 2001, o total, deve chegar a
80 milhões de reais. A Internet também se transformará na principal
loja do Magazine Luiza durante o período natalino. O canal virtual
mais as lojas eletrônicas serão responsáveis por receitas de 50
milhões de reais em 2001. Hoje, só as vendas pelo site dão o posto
de terceira loja entre os 109 pontos físicos da empresa. Detalhe,
o canal virtual tem o mesmo lucro líquido do convencional.
As Lojas Colombo,
tradicional varejista do Sul do país que tinha uma operação de Internet
incipiente no ano passado, preparou uma surpresa para este Natal:
a estréia das lojas eletrônicas, mesmo conceito utilizado pelo Magazine
Luiza (pequenos espaços, sem inventário, com PCs conectados à Web).
Com isso, reduz custos com aluguel e inventário e consegue atrair
consumidores de classes sociais que não têm acesso à rede. O primeiro
ponto começa a funcionar em novembro. Até o final do ano, o objetivo
é inaugurar seis lojas.
O Ponto Frio,
que faturou 10 milhões de reais no Natal, número que inclui vendas
pela Web e telefone, estima também um desempenho entre 50% e 70%
superior em 2001. O Shoptime, canal de TV, televendas e comércio
eletrônico, não revela os objetivos de venda para o próximo período
natalino, mas o crescimento do canal Internet é de mais de 200%
este ano, passando de uma fatia de 10% para 30% do faturamento da
companhia. A Saraiva.com também não abre os números, mas informa
que o faturamento total de 2001 só do canal virtual será de 18 milhões
de reais, um crescimento de 100%.
Apesar das taxas
de crescimento altas, o comércio eletrônico ainda representa menos
de 1% da movimentação do varejo tradicional na América Latina. E
esbarra nas contradições das economias brasileira e latino-americana,
baseadas na concentração de renda, carência de infra-estrutura e
o alto custo do bem básico para navegar na Web: o PC. Dos 428 milhões
de habitantes da região, só 17% (71 milhões de pessoas) podem arcar
com o custo de acesso à Internet, segundo estudo do Boston Consulting
Group sobre o varejo online na América Latina.
Em 2001, segundo
o instituto de pesquisa Jupiter Media Metrix, o número de internautas
que realizam compras pela Internet chegará 2,5 milhões, o que significa
16% da população ativa da Web no Brasil. Em 2006, serão 11,8 milhões
ou 35% dos que estão conectados na rede, se as previsões acertarem
o ritmo de crescimento.
Mesmo com o
aumento de 372% em cinco anos, o universo total de pessoas que compram
pela Internet representará menos de 10% da população brasileira,
que, pelos números mais recentes do IBGE, atingiu 170 milhões de
pessoas em 2000-4. E esse é o fosso que os varejistas virtuais, se
desejarem tornar a Internet um canal atraente e lucrativo de vendas,
precisam eliminar para não repetir o caminho da TV a cabo no Brasil,
que, depois de estimativas que calculavam 10 milhões de assinantes
em 2000-4, chegou com muita dificuldade a 3,5 milhões, de acordo com
dados da Associação Brasileira de Telecomunicações por Assinatura
(ABTA).
"O comércio
eletrônico é viável sim", reforça Bruno Laskowsky, diretor da AT
Kearney. "A pergunta que se deve fazer é quando?". Para o consultor,
há claros sinais, apesar das próprias barreiras do mercado brasileiro
– como concentração de renda, infra-estrutura e o preço do computador
– de que o mercado migra para o varejo virtual. "Todos discutem
o nível de adesão ao comércio eletrônico e nunca houve um processo
tão rápido de crescimento", argumenta.
De setembro
de 2000-4 a setembro de 2001, o número de pessoas que visitam sites
de comércio eletrônico cresceu 186%, passando de 957 mil visitas
por mês para 2,7 milhões, respectivamente, o que representa um alcance
de 46,3% da população ativa da Internet, segundo dados da Jupiter
Media Metrix, que só mede os acessos domésticos das 10 principais
regiões metropolitanas do Brasil. No mesmo período, a população
ativa da rede aumentou 34%.
Relatório do
Ibope eRatings que analisa o comportamento da audiência durante
o Natal mostra que, neste período, o número de internautas ativos
diminui, mas os sites de comércio eletrônico, cartões e entretenimento
crescem. No ano passado, a audiência deles aumentou 25% em dezembro.
O afluxo de pessoas que visitam os varejistas online não significa
vendas, mas a lógica é a mesma do mundo real. Um shopping center
vazio é igual a uma loja online sem internautas. Quanto maior o
número de pessoas que circulam ou visitam um centro de compras,
maior a chance de conversão em vendas.
Mesmo com o
crescimento explosivo do comércio eletrônico na região, o Brasil
e a América Latina ainda representam uma fatia pequena do movimento
virtual mundial. Um estudo do GartnerG2 estima que as vendas online
atingirão 25 bilhões de dólares no Natal. Os Estados Unidos serão
responsáveis por 11,8 bilhões de dólares. A Europa, 8,5 bilhões
de dólares. A Ásia e Pacífico, 2,4 bilhões de dólares. Japão, 1,5
bilhão de dólares. E o restante (no qual a América Latina está incluída),
990 milhões de dólares.
A derrocada
das aventuras puro-sangue da Internet brasileira ajudou também no
amadurecimento do setor. Há grandes diferenças entre o comportamento
dos varejistas virtuais nos Natais de 2000-4 e 2001. No ano passado,
apesar do clima econômico favorável, as lojas online investiram
no aumento de tráfego e reconhecimento de marca. Gastaram somas
enormes de dinheiro em publicidade e em vendas deficitárias e esforçaram-se
para entregar o que foi pedido e a tempo. Agora, correm atrás de
eficiência e lucratividade, num cenário que se deteriorou muito
em 2001, principalmente para as empresas de Internet.
Ao longo deste
ano, os principais varejistas virtuais reestruturaram suas operações
para a realidade de mercado, demitindo funcionários, mas também
investindo pesado em infra-estrutura tecnológica para suportar o
crescimento de demanda previsto para 2001. "A palavra-chave será
a gestão adequada de estoque", diz Paulo Nazario, pesquisador do
Centro de Estudos em Logística do Coppead (Centro de Pós-graduação
do Instituto de Administração da Universidade Federal do Rio de
Janeiro).
Os sites de
comércio eletrônico dizem que se prepararam para enfrentar períodos
de alta demanda. Todos contam com centros de distribuição próprios,
onde armazenam os produtos. "Temos estocados os principais itens,
que representam 80% do volume", enfatiza Peter Furukawa, diretor
comercial do Submarino. A previsão é despachar, neste período, 650
mil produtos, quase o dobro do ano passado.
A Americanas.com
montou uma operação que, além do estoque próprio, aperfeiçoou o
relacionamento com os fornecedores, garantindo a disponibilidade
do produto adquirido, mesmo que ele não esteja nos armazéns da empresa.
"Mapeamos todo o processo e fizemos uma série de melhorias para
garantir fluidez", garante Timótheo Barros, diretor de logística
da loja virtual, que usa a mesma solução da companhia de tijolo
e argamassa. O Shoptime trocou toda a parte de infra-estrutura –
comprou ferramentas da Oracle e IBM – para suportar o crescimento.
O Magazine Luiza passou a usar um novo centro de distribuição em
Sorocaba, interior de São Paulo, exclusivamente para o comércio
eletrônico, para entregas em cidades onde não conta com lojas físicas.
E para aumentar
as vendas e o número de pessoas que compram pela Internet, alguns
varejistas já estão utilizando uma estratégia astuta: a integração
do canal virtual com o físico. "São iniciativas criativas que alavancam
o crescimento do comércio eletrônico", enfatiza Marcos Aguiar, diretor
de e-commerce do BCG.
As Lojas Colombo,
um dos principais varejistas do Sul com faturamento de mais de 850
milhões de reais e 287 lojas, estréiam nesta modalidade. "É uma
maneira de tornar disponível o acesso para um novo perfil de consumidores",
explica Olivar Berlaver, diretor comercial da rede varejista. O
pioneiro foi o Magazine Luiza que conta com 27 lojas eletrônicas,
pequenos espaços, sem inventário e PCs conectados à Internet acessando
diretamente o estoque de produtos.
Quem tem modelo
semelhante é a Americanas.com. Ela instalou quiosques em seus 26
pontos físicos do Estado do Rio de Janeiro para complementar a oferta
de produtos. Essa modalidade em conjunto com televenda representa
entre 15% e 20% do faturamento da companhia, que foi de 47 milhões
de reais nos três primeiros trimestres de 2001. "A tendência é convergir,
não separar mais o canal real do virtual", acredita Laskowsky, da
AT Kearney.
A estratégia
de convergência está fazendo com que o valor médio das compras pela
Internet cresça, à medida que os varejistas online deixam de vender
apenas CDs e livros (ainda os preferidos dos internautas, de acordo
com pesquisa exclusiva da e-bit para a Business Standard).
Na pesquisa, a categoria brinquedos aparece em segundo lugar e perfumaria/cosméticos,
eletroeletrônicos, DVDs/vídeos têm boas intenções de compra.
O Submarino,
por exemplo, que começou vendendo livros e CDs, comemora que 55%
de seu faturamento venha de eletroeletrônicos e produtos de informática.
O valor médio das compras, em setembro e outubro, atingiu 130 reais.
No Magazine Luiza, o tíquete médio é de 300 reais. E no Ponto Frio,
está acima de 500 reais. Na Americanas.com, passou de aproximadamente
120 reais, no começo do ano, para 200 reais. No Shoptime, cresceu
52% de janeiro a outubro, quando chegou a 283 reais. É um bom sinal,
afinal o custo de entregar um produto de 10 reais e outro de 200
reais não é proporcional ao valor pago.
Conclusão: o
faturamento das vendas online dos principais varejistas cresce também
exponencialmente. A Americanas.com, por exemplo, faturou 23,8 milhões
de reais no terceiro trimestre de 2001. O resultado é igual ao primeiro
semestre e 228% maior que o mesmo período do ano passado. O Submarino
conseguia vendas mensais de 2 milhões de reais em fevereiro. Em
outubro, chegaram a 8,5 milhões de reais. Manter o crescimento é
fundamental para atingir a lucratividade. A Saraiva.com, por exemplo,
chega ao equilíbrio do fluxo de caixa em meados de 2002. "O nosso
projeto nunca foi voltado para ser uma fonte de capital para a empresa",
admite Ledo Camargo, diretor-geral do braço virtual da livraria.
A diferença
de mentalidade é clara. Embora todos estejam em busca de um negócio
rentável, os varejistas virtuais se profissionalizaram, investiram
em infra-estrutura, serviço, na variedade de sortimento, meios de
pagamentos, atendimento e em crédito. Afinal, são coisas que fazem
a diferença no varejo real ou no virtual.
|